31/08/2011

Alma

Observo os kilometros que me faltam. A descida é abrupta e rompida pelas pedras soltas que roçam os pedais, algumas atingem-me, cortam-me pedaços. Inclino a cabeça, mas o vento não me deixa ver, bate-me na cara, imediatamente largo o volante para limpar o pranto, maldito vento, onde aprendi a devastar as pedras do tempo. Onde aprendi a pintar a tela? De alguma forma é parte de mim. Mas o vento já lá estava. E eu a descer. A descer inventando sentidos que tocam num determinado ponto singular. Representações da percepção do pensamento. No fundo, sou parte da estrada, parte da preponderância do (in)acessível. Uma pedra solta-se e bate-me na cabeça, atira-me ao chão, por breves instantes consigo ver sombras que circundam em intervalos de tempo, mas como encaramos o sopro. Nesse momento, parte de mim continuou a descer bruscamente. Nas curvas ainda acelerava mais. Era como uma perseguição e a sombra era eu. Apercebi-me que podia fechar os olhos que continuava a ver a estrada, podia largar o volante que a paisagem permanecia lá. Assim, continuei a descer, a descer pela montanha do vento como se tratasse de um carrossel. À medida que descia o verde intenso das árvores ficava-me nos olhos, as rochas pontiagudas desafiavam os braços, e a velocidade aumentava. Um pequeno descuido e podia perder todo o equilíbrio e bater com violência num seixo, ficando ferido ao ponto de não conseguir sair do lugar. Mas porque razão eu não conseguia respirar? O ar já não parecia tão rarefeito. Os espaços antes conquistados eram devolvidos ao tempo. Sempre tive mais facilidade em subir, a vontade ajuda, o regresso é sempre mais doloroso. Não devia, a água flui da montanha em harmonia natural como a velhice. Se o limite máximo é a vida, a infância é apenas o preâmbulo de um caminho ondulado, onde ignoramos por completo a experiência e o envelhecimento são fragmentos de noções que tivemos quando desfrutamos de uma existência. Será a descida uma subida negativa? Posso subir a montanha abaixo? É a consciência que me impõe os limites ou fui eu que não reparei no espelho colossal que está junto dos meus pés? E a tolerância e a solidariedade humana, onde estão? Pedalo mais um pouco e de repente a campainha zuniu, abriu-se uma porta e alguém me pergunta o que pode fazer por mim? - E eu respondo: estou pedalando. - E alguém responde: eu nunca estive aqui e esta porta não existe, mas ninguém toca à minha porta sem entrar. – Eu esboço um sorriso e logo depois acordo no chão. Levanto-me e continuo a subir a montanha…

2 comentários:

Luar disse...

Boa noite

Vim agradecer a visita e o comentário no meu cantinho.
É nestas subidas e descidas de montanhas que se faz a nossa evolução pessoal.
Em cada queda a cicatriz que marca a nossa vida.
É neste carrocel de subidas, descidas, cai e levanta que arranjamos forças para contornar os obstáculos no caminho.
Vou estar por aqui a seguir.

Luar

. disse...

Luar: é com imenso prazer que recebo a sua luz!